quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Dragão refletia sobre sua longa vida. Queria medi-la de qualquer forma, mas não conseguia compará-la a nada que tenha visto. Talvez esse desejo tenha o aproximado dos humanos.
Os humanos, ao seu ver, eram criaturas realmente curiosas e certamente imprevisíveis, o que o intrigava mais neles era a incrível habilidade de mudar, mudavam muito em pouquíssimo tempo, não que não fosse realmente inesperado, viviam pouco, para Dragão a vida humana comparava-se a um sopro em efemeridade.
Acontece que dragão passou uma bela temporada com aquelas criaturas, não um tempo tão grande, mas o bastante para que 3 gerações nascessem e morressem, pouco mais que 150 anos.
Anos, meses, dias, horas, minutos, segundos, que invenção mais fascinante a desses humanos, eles mediam o tempo! Aquela invenção envolveu dragão de tal forma que ele passou a viver pela delimitação do tempo, passou, a partir daí, a contar os dias, e os anos de sua vida, mas não conseguia medir o tempo que já havia passado, pois naquela época ele não se importava com tais medidas.
Durante o tempo que passou com os humanos, viveu como eles, assumia a forma de um velho sábio, que viajava por suas comunidades, nem sempre era recebido com hospitalidade, por vezes era expulso das vilas pelo temor de seus líderes, mas muitas vezes, era acolhido como um irmão, principalmente pelos anciãos, que o viam como um velho amigo e um homem digno de ser ouvido.
Como homem, Dragão foi o Mago.
Como mago ensinou a todos que o ouviam os segredos da magia, principalmente aos anciãos, que, embora tivessem muito pouco tempo de vida restante, tinham muito mais paciência que os jovens, não que não ensinasse aos jovens, mas era, no mínimo, desgastante explicar muitas e muitas vezes que a magia demorava um tempo para se manifestar e que os exercícios de elevação espiritual não eram baboseira.
Mas estavam em guerra, e em muito pouco tempo, menos de 100 anos, os seguidores de Mago, os magos foram chamados à guerra, à guerra contra os dragões. Dragão sabia que isso iria acontecer, ele acabara de entregar uma poderosa arma aos inimigos de seus filhos, era um traidor de sua raça, traidor assim como a raça humana.
—O que se passa por sua sábia cabeça ó grande Mago, meu mestre, isto é, se um aprendiz como eu tem o direito de lhe fazer tal pergunta...
Uma grande quantidade de seus aprendizes haviam saído para a guerra com seus novos poderes, mas quem falava era Ank-uh, um ex-peregrino velho para os padrões humanos, que havia decidido finalizar sua peregrinação à casa de Mago, era um grande e sábio mago, companheiro de Dragão há quase 30 anos, mas que iria viver pouco, tinha pouco mais que 70 anos, e seu frágil corpo não agüentaria muito mais.
—Que bom que em 30 anos você ainda se considera um aprendiz, eis a marca de um verdadeiro mago.
—Obrigado pelo elogio, meu mestre, mas o conheço, ou pelo menos creio que o conheço de certa forma que tenho razões para pensar que algo o aborrece.
Dragão tentou não olhar para aqueles olhos negros e enrugados que o examinavam.
—Creio que tem algo haver com nossos irmãos que foram guerrear contra os dragões.
—Seus irmãos.
Aquilo saiu rápido de sua boca, nunca antes tinha feito nada, nem falado nada sem pensar, e aquilo com certeza não foi pensado, ali ele era humano, tinha de se comportar como humano.
—Como o senhor preferir, mestre, meus irmãos, mas agora me diga, por que isso o incomoda tanto?
A amargura contida do coração de Dragão irrompeu dele como nunca antes e pela segunda vez na sua vida fez algo impensado.
—Isso me incomoda realmente me incomoda, me faz ver o tremendo erro que cometi quando decidi ensiná-los os segredos da magia, magia que antes era restrita apenas aos dragões, agora centenas de meus filhos vão morrer apenas por um capricho meu, apenas por que eu, Dragão, o pai de todos os dragões, resolvi ensinar á seus maiores inimigos, seus únicos inimigos como se utilizar de sua maior arma.
O velho Ank-uh continuou a fitá-lo atenciosamente, a única alteração que era vista nele eram as sobrancelhas levemente arqueadas. Dragão o observava atentamente, essa, acreditava ele, não era a reação que um humano deveria ter ao descobrir que seu inimigo mais mortal e mais poderoso estava bem na sua frente.
—Creio que isso é um problema, meu mestre.
Dragão ficou desnorteado, como ele conseguia manter a calma em uma situação dessas? Ank-uh se virou e procurou uma cuia que lhe agradasse em uma prateleira.
—Por quê? —indagou Dragão — Por que você não está assustado?
As sobrancelhas grisalhas se arquearam novamente.
—Ora, mas é claro que estou assustado, mas mesmo assim esse seu segredo não era inesperado. — Dragão o analisava, sempre pensou que havia conseguido se passar por humano perfeitamente — Veja bem, antes de o senhor aparecer os únicos que detinham os segredos da magia eram os dragões, e dentre os dragões, o senhor mesmo disse, o mais poderoso deles é o próprio Dragão, além disso o senhor já deixou escapar que não é possível que os dragões mudem de forma, embora tenha nos ensinados como fazer isso.
—Eu poderia te matar.
—Sim, é claro que sim, você poderia, e já o teria feito se realmente o quisesse.
Dragão riu abertamente, ambos sabiam que não haveria morte entre eles aquela noite, embora Dragão fosse o senhor dos dragões, ele ainda era o Mago e um mago não se volta contra seu aprendiz por uma coisa dessas.
Saíram naquela noite e durante todo aquele mês Dragão/Mago ensinou a Ank-uh a ultima magia que ensinaria a um humano, uma magia extremamente poderosa, uma que alongou ainda por muitos e muitos anos a vida do velho mago. Depois disso Dragão deixou o convívio dos humanos, mas encarregou seus últimos e mais fieis aprendizes para correrem o mundo e ensinasse a magia para todos os povos dominados, pois a seu ver a magia nunca mais deveria ser exclusiva apenas a uma raça.
Mas aqueles tempos haviam passado, hoje ele era apenas um espectador daquela guerra sangrenta, não via motivos para ela, mas não ousava ficar contra seus filhos, nascidos de sua carne.
O vento lhe trazia a noticia que os dragões estavam perdendo território e que os povos livres pelos humanos se uniam a eles para escapar do controle cruel dos antigos senhores, sabia que seus magos haviam desempenhado bem a tarefa de difundir a magia aos povos dominados e que este era um dos maiores motivos por eles perderem tanto território. Mas Dragão estava disposto a não se arrepender de sua decisão.
—Meu senhor, trago uma mensagem do grande senhor Quendall.
O mensageiro elfo desviou seus pensamentos.
—O que meu filho deseja? — a voz de trovão de Dragão feriu os ouvidos sensíveis do mensageiro que chorou de dor e de medo, medo de que de alguma forma tivesse despertado sua cólera.
—Ele deseja se encontrar com senhor nas montanhas de Soto, daqui a três luas, meu senhor.
—Muito bem, se era apenas isso que tem a me dizer pode ir.
O elfo ficou parado, de joelhos como estava ao entregar o recado.
—Mas senhor, ir para onde?
Dragão ponderou por um instante.
—Para onde desejares, já cumpristes sua função, agora és livre para ir e vir.
Após dizer isso Dragão encostou sua garra na ponta da testa do elfo, um movimento brusco que o fez empalidecer de medo, com uma magia curou-o de todos os ferimentos e todo o cansaço de sua longa viajem.
O elfo em agradecimento beijou a ponta da garra de uma das patas de dragão que estava encostada no chão.
—Obrigado meu senhor, muito obrigado, que sejam belos todos os caminhos que cruzares.
Então se voltou para ir, mas então voltou-se novamente a Dragão.
—Meu senhor, o senhor me permite dizer mais uma coisa?
Dragão assentiu, sabia que aquele elfo que, embora parecesse jovem, já havia vivido muitas vidas de humanos e pudesse dar um bom conselho.
—Nós os alto-elfos nascidos sob a estrela temos um dom, e eu lhe digo senhor, há uma sombra pairando sobre seu caminho, não vá ao encontro de seu filho, senhor, se teme por sua vida não vá.
Dragão deixou o elfo, mas não pensou em suas palavras, confiava em seu filho, não iria fazer uma desfeita com ele por causa de um elfo.

Um comentário:

Unknown disse...

Peraí... esse é "o" Dragão... vc agora vai contar a história do Dragão?????
snif... dizem q um mestre d verdade é bom somente quando seu discipulo o supera...
eu fui um bom mestre... snif

boa historia Gurya continua assim